Quando era muito miúdo, antes de ter convicções, antes de ter ambições, antes de ter experiência (ou mesmo experiências), eu queria ser bom. Queria ser bom menino. E na maior parte das vezes conseguia. Por vezes, tive acessos de maldade. Gratuita, como o é a verdadeira maldade. Lembro-me de uma cena. Por vezes, tive acessos de egoísmo. O egoísmo, a um nível exagerado, é uma forma de maldade, ou desencadeia actos de maldade.
Às vezes, pergunto-me se a minha vontade de ser bom viria de uma educação católica e que no fundo não seria senão uma forma de me encomendar a Jesus Cristo. O que em si é uma boa forma de egoísmo e logo... de maldade. Devia ser isso porque entretanto, e de forma impulsiva ou impensada, resvalava para uma espécie de verdade e caía para pequenas maldades.
Hoje, sou um ateu empedernido. Não tenho qualquer razão para agradar a Cristo e não creio que pudesse fazer o que quer que fosse para lhe agradar, porque se alguma vez existiu, ele não é hoje senão pó e cinza.
Mas continuo por exemplo, a estar disponível para quem quer a minha ajuda. Continuo (fi-lo sempre) a motivar e felicitar pessoas pelas coisas que fazer bem e a relativizar o que fazem mal. Geralmente faço isto de forma leve e na ocasião.
E no entanto... Odeio as pessoas e acho que a maior parte veio ao mundo com o objectivo bem preciso de me foder a paciência. E no entanto... acho que algumas pessoas que fazem tudo bem são uns grandes cabrões auto-suficientes e leviano. E os que repetem os erros são estúpidos e inconscientes. E quero que ambos os tipos, mais todos entre os dois, se fodam bem contra uma parede de betão.
Mas o que eu quero reconhecer aqui hoje, e com todas as letras é que eu sou, eu próprio - e sem atenuantes nem desculpas, sem razões ou contradições, sem culpado outro que eu mesmo - um grande filho da puta.
E sou-o porque não o quero ser. E sou-o porque me desprezo. E sou-o porque não tenho paciência, nem tolerância, nem consigo sequer ter paz comigo ou com quem quer que seja.
E isso leva-me a desconfiar de quem me ama. Leva-me a desconfiar de mim mesmo. Leva-me a ser ainda mais mau, ainda pior.
Quando dou tudo (e acontece frequentemente "dar tudo") fico insatisfeito se o que me é dado o é de uma forma que não corresponde aos meus parâmetros. E se o dão consoante os meus parâmetros pergunto-me se não estão apenas a "tentar agradar-me". E talvez por uma razão obscura.
Queria ser bom. Quero ser bom. Mas para isso, também tenho que tornar-me mais ligeiro. Fazer menos perguntas, esperar menos respostas.
E talvez amar-me um pouco mais, fazer-me um pouco menos de mal. Porque não tenho vontade de ter vontade de fazer-me mal. E tenho vontade de não ter vontade de nada disso, sem ter que me pôr a descobrir de onde vem tudo isto.
Quero ser bom por vós, quero ser bom por ti. Por ti também. E por ti. E por mim, porque não ?
E mudar o título deste texto para "J'ai été jadis un connard"
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