quarta-feira, 24 de junho de 2026

Je suis un connard

Quando era muito miúdo, antes de ter convicções, antes de ter ambições, antes de ter experiência (ou mesmo experiências), eu queria ser bom. Queria ser bom menino. E na maior parte das vezes conseguia. Por vezes, tive acessos de maldade. Gratuita, como o é a verdadeira maldade. Lembro-me de uma cena. Por vezes, tive acessos de egoísmo. O egoísmo, a um nível exagerado, é uma forma de maldade, ou desencadeia actos de maldade.

Às vezes, pergunto-me se a minha vontade de ser bom viria de uma educação católica e que no fundo não seria senão uma forma de me encomendar a Jesus Cristo. O que em si é uma boa forma de egoísmo e logo... de maldade. Devia ser isso porque entretanto, e de forma impulsiva ou impensada, resvalava para uma espécie de verdade e caía para pequenas maldades.

Hoje, sou um ateu empedernido. Não tenho qualquer razão para agradar a Cristo e não creio que pudesse fazer o que quer que fosse para lhe agradar, porque se alguma vez existiu, ele não é hoje senão pó e cinza.

Mas continuo por exemplo, a estar disponível para quem quer a minha ajuda. Continuo (fi-lo sempre) a motivar e felicitar pessoas pelas coisas que fazer bem e a relativizar o que fazem mal. Geralmente faço isto de forma leve e na ocasião.

E no entanto... Odeio as pessoas e acho que a maior parte veio ao mundo com o objectivo bem preciso de me foder a paciência. E no entanto... acho que algumas pessoas que fazem tudo bem são uns grandes cabrões auto-suficientes e leviano. E os que repetem os erros são estúpidos e inconscientes. E quero que ambos os tipos, mais todos entre os dois, se fodam bem contra uma parede de betão.

Mas o que eu quero reconhecer aqui hoje, e com todas as letras é que eu sou, eu próprio - e sem atenuantes nem desculpas, sem razões ou contradições, sem culpado outro que eu mesmo - um grande filho da puta.

E sou-o porque não o quero ser. E sou-o porque me desprezo. E sou-o porque não tenho paciência, nem tolerância, nem consigo sequer ter paz comigo ou com quem quer que seja.

E isso leva-me a desconfiar de quem me ama. Leva-me a desconfiar de mim mesmo. Leva-me a ser ainda mais mau, ainda pior.

Quando dou tudo (e acontece frequentemente "dar tudo") fico insatisfeito se o que me é dado o é de uma forma que não corresponde aos meus parâmetros. E se o dão consoante os meus parâmetros pergunto-me se não estão apenas a "tentar agradar-me". E talvez por uma razão obscura.

Queria ser bom. Quero ser bom. Mas para isso, também tenho que tornar-me mais ligeiro. Fazer menos perguntas, esperar menos respostas.

E talvez amar-me um pouco mais, fazer-me um pouco menos de mal. Porque não tenho vontade de ter vontade de fazer-me mal. E tenho vontade de não ter vontade de nada disso, sem ter que me pôr a descobrir de onde vem tudo isto. 

Quero ser bom por vós, quero ser bom por ti. Por ti também. E por ti. E por mim, porque não ?

E mudar o título deste texto para "J'ai été jadis un connard"


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